Entrevista a Moncho de Fidalgo na Academia Galega da Língua Portuguesa:
“(…) – Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP): Apresenta-se A menina da Ribeira como “um romance realista e em parte histórica”: como é isso, que se deve entender por “realismo” e “romance histórico” nesta altura do século XXI?
– Moncho de Fidalgo (MF): Bom, afirmar o realismo do século XXI é o que foca na representação objetiva da realidade. Crua e honesta, destacando questões sociais, desigualdade e vida atuais. O romance histórico, caracterizar-se-á por uma documentação ou fatos históricos, mesmo para mudar conceitos e revisar acontecimentos. A menina da Ribeira enquadra-se nestas duas visões. (…)
– AGLP: Outra surpresa é o recurso cervantino de ler uma referência ao processo de composição da narrativa que estamos a ler, fala-se do livro de A menina da Ribeira no próprio livro. E também cita Cervantes, mesmo como possível produtor de ascendência galega, nas suas obras. Reconhece este autor, que é o centro do cânone literário espanhol, como uma das suas influências centrais?
– MF: Cervantes Saavedra, apelidos galegos, tem influído em muitos escritores sem eles saberem. Os primeiros livros que os alunos leem é o Quixote, mas no meu caso acho que não tem influído. Sim Eça de Queirós no Primo Basílio ou Miguel Torga com a Vindima e Contos da montanha.
– AGLP: O tratamento que dá à personagem da menina da Ribeira é muito diferente a outras personagens femininas da sua anterior produção, como a de Colensa de Seguindo o caminho do vento, ponhamos por caso. É esta uma mudança muito significativa, a que a atribui?
– MF: A Colensa faz parte de um romance e de uma ficção, A menina da Ribeira é uma pessoa real. Levamos mais de vinte anos casados.
– AGLP: O professor Francesco Traficante põe em destaque num estudo que você foi o primeiro narrador em galego-português, com O Sereno, um guerrilheiro em Estalinegrado, editado em 1983 (2ª ed. em 1990). A menina da Ribeira é o seu oitavo título de narrativa: Como valoriza esta trajetória no campo literário galego nestes já quase 43 anos?
– MF: Há uma realidade na Galiza, enquanto alguns vivemos para o galego, nosso idioma internacional, outros vivem do galego. Os autores que escrevemos em galego-português fazemo-lo em condições muito diferentes, não publicamos nas editoras do “regime”, não gozamos das ajudas do governo galego nem dos meios oficiais. Eu estou feliz de ter atingido uma meta considerável, dada a situação do mundo editorial na nossa nação. (…)”