Víctor Freixanes: “Carvalho Calero é a crónica do galeguismo do século XX”

Entrevista de Laura Ramos Cuba a Víctor Freixanes no Portal Galego da Língua:
“(…) – Portal Galego da Língua (PGL): Carvalho Calero acabou de ser escolhido como figura homenageada para as Letras Galegas de 2020. Esta era uma reivindacação contínua de diversos movimentos sociais que, anos depois, é satisfeita. Como avalias esta resolução por parte da Academia?
– Víctor Freixanes (VF): Há tempo que a Academia é ciente de que a figura de Carvalho Calero não podia ser adiada nem marginalizada. Não deixa de ser uma injustiça histórica que não se reconheça o compromisso, o trabalho e a vida que este homem dedicou à cultura, à literatura, à língua galega… Mesmo com obras como a História da Literatura ou como a sua própria significação como primeiro catedrático de Língua e Literatura Galega na USC em 1972. Foi professor de muitos de nós, a mim leccionou-me Língua e Literatura Galegas… É certo que havia uma história detrás de desencontros, digamos assim, entre uns setores da Academia e o próprio Carvalho Calero e as suas posições arredor da língua na última etapa da sua vida. Eu acho que a nova sensibilidade da Academia está em que isso é um capítulo que forma parte da história e da pluralidade democrática dum país. E, portanto, o currículo e a memória histórica de Carvalho Calero não a vamos discutir. Havia que encará-lo com clareza, com transparência, com naturalidade e, também, aproveitando, não o oculto, que esse ano se cumprem 110 anos do seu nascimento e 30 desde a sua morte. São esses números redondos que dão pé a dedicar-lhe o ano a Carvalho Calero, que ademais também coincide com a reclamação que fizemos já ao Concelho de Ferrol para que restaurem a sua casa, de quem já vimos boa disposição. É uma oportunidade, era algo que até eu tinha que assumir. (…)
– PGL: Que destaca da sua figura e da sua obra? Quer a nível individual quer como presidente da Academia, como vai ser abordado o ideário linguístico de Carvalho?
– VF: Bem, vamos ver… A Academia tem dous momentos, além doutro tipo de atividades como são o Portal das Palabras ou a Primavera das Letras, que está pensado para escolas de primária a iniciativa dos professores. Destes dous momentos um é a celebração do Dia das Letras, com a intervenção formal dos académicos ao redor da figura de Carvalho. Então escolheremos três académicos que abordem a figura de Carvalho Calero desde diferentes perspetivas. E depois, em segundo lugar, haverá um simpósio académico onde haverá distintas vozes sobre a sua figura e onde todas as vozes que tenham algo que dizer, podam dizê-lo. Se têm que estar três dias, serão três dias, mas todo o mundo com uma posição documentada e consistente, terá espaço para poder dizê-lo com a madurez que permite hoje uma sociedade, incluso uma sociedade galego-falante, que pode abordar estes temas com uma tranquilidade, documentação e conhecimentos que não existiam há trinta anos.
Então isso também vai permitir que a figura de Carvalho Calero seja abordada dessa perspetiva, mas não é a única perspetiva de Carvalho. E isso também é importante. A Academia não aborda Carvaho Calero pelo tema da proposta ortográfica, senão que homenageia a sua figura histórica. Carvalho Calero é, de forma semelhante a António Fráguas, a crónica do galeguismo do século XX. Carvalho Calero viveu desde o período pré-Guerra Civil e República, porque é um homem muito comprometido com a República, o galeguismo do momento, o Seminário de Estudos Galegos e o Partido Galeguista… participa inclusive com Lois Tobio na redação do anteprojeto do Estatuto de Autonomia que promove o Seminário… Quer dizer, há uma série de atividades objetivas de Carvalho. E depois, na guerra, ele é uma vítima da repressão, com todas as consequências. É uma situação muito grave que eu penso que o afetou emocional e psicologicamente, afetaria a qualquer pessoa.
Depois, é um homem do que chamaríamos o exílio interior. Pratica um bocado -como aconteceu ao próprio Antonio Fraguas e Fernández del Riego– a clandestinidade. Ele viveu exercendo de professor às escondidas para manter a sua família. Foi uma situação muito dura. Teve a sorte de ser acolhido por António Fernández no [instituto] Fingoi, e aí está atuando já o grupo Galaxia, os que foram os fundadores de Galaxia. E ele não pode exercer como professor e é contratado como gerente! Ali chegaram também para serem professores pessoas como Ferrín ou o próprio Bernardino Graña. E nesse momento começa a trabalhar com Fernández del Riego –porque eram amigos íntimos– na História da Literatura Galega Contemporánea. E nesse livro de correspondência entre os dous é impressionante ver como trabalham, com que constância, com que método, com que teimosia… É um retrato dos dous, como procuram os livros, como os vão pedir… Claro, porque agora tudo está na Internet e há umas bibliotecas muito boas, mas daquela não havia nada. Encontrar um original de Proezas de Galicia de Fernández Neira ou encontrar uns documentos do que podia ser o galego patriótico da guerra contra os franceses, ou os primeiros textos em língua galega dos Precursores… Aí também estava Penzol, que estava comprando muito livro e dotando o que depois seria a partir de 1963 a biblioteca da Associação Penzol, e todos estavam aí puxando e construindo…
Ou seja, sou consciente de que Carvalho era o historiador da literatura e o gramático, porque foi a quem lhe encarregaram a Gramática do Galego Comum, de Galáxia, porque antes não havia nada, era uma seleção. E com esse material, Carvalho é quem nos dá aulas a nós na faculdade. (…)”

Teresa Moure: “Sempre digo que não tenho vocação de linguista”

Entrevista de Valentim Fagim a Teresa Moure no Portal Galego da Língua:
“(…) – Portal Galego da Língua (PGL): No prólogo do livro [Linguística eco-], da autoria de Moreno Cabrera, ele começa a indicar que a autora está comprometida com a defesa da diversidade linguística sem esta inclinação afetar a fotografia da realidade que mostra. Foi uma dificuldade transitar por essa aparente corda frouxa?
– Teresa Moure (TM): Sempre digo que não tenho vocação de linguista. Em absoluto. Foram uma série de circunstâncias curiosas e o acaso que puxaram de mim para estudar filologia. Depois, já cometido o pecado, só ficava a hipótese de me afastar da literatura: estava convicta de que queria escrever e, portanto, convinha extremar a cautela com a dissecção literária e dirigi os meus passos para a linguística geral. Nesse contexto, um bocadinho de rebeldia como ingrediente psicológico, um contexto nacional construído sobre a ferida e sobre a negação de nós e o clima na faculdade nos ’90, mais abertamente político do que o atual, tornaram-me em ativista. Não tenho que balançar-me na corda bamba; as tensões fazem parte de nós, mas sou mais ativista do que fotógrafa da realidade, seguindo a imagem de Juan Carlos Moreno Cabrera.
Tenho a fortuna, porém, de que no momento atual só seja possível fazer uma fotografia digna de ser considerada realista mostrando a crua realidade que o ativismo denuncia: padecemos uma devastadora perda da diversidade linguística e cultural. Hoje é aceite o cálculo que prognosticava Michael Krauss em 1992: para o fim do século XXI, 90% das línguas da humanidade terão desaparecido. Às vezes, no âmbito dos estudos de género, indico que não sou feminista como consequência de ter nascido mulher; quero acreditar que seria igualmente feminista encapsulada em qualquer outro tipo de corpo porque para mim se trata dum assunto ético. Da mesma maneira, não sou ativista ecológica e ecolinguística movida pelo único interesse de defender a minha língua (o qual, aliás, seria perfeitamente legítimo). Acho que todas as línguas são património cultural da humanidade e a sua perda faz com que o mundo seja um lugar menos criativo e interessante; um lugar que corre o risco de ser morada do pensamento único. As pessoas que são falantes de línguas não ameaçadas também devem comprometer-se com a defesa da diversidade; é urgente que o façam.
– PGL: No livro desafias a pessoa leitora para tomar consciência da seu desempenho em geografia linguística. Somos assim tão eurocêntricas?
– TM: Acho que somos absolutamente eurocêntricas. Decidimos, por exemplo, estudar as línguas fortes dos estados próximos (inglês, francês, alemão ou italiano). Embora haja ascensões e descidas como resultado de modas, poucas vezes escolhemos línguas doutras áreas geográficas. Nas aulas peço ao estudantado para documentar as unidades ou fenómenos linguísticos que estuda em línguas não europeias porque, ao estudarmos línguas, tendemos a dar por universais os fonemas oclusivos, o género feminino ou os adjetivos qualificativos porque existem, precisamente, nas línguas europeias. Nisso não nos comportamos de maneira diferente do colonizador castelhano ou português do século XVI que, na versão erudita dos missionários, procurava as categorias do latim nas línguas aborígenes que aprendia com aquele esquisito objetivo de traduzir a Bíblia e fazer realidade o verdadeiro objetivo do imperialismo: colonizar mentalmente os povos ocupados. O corpus de dados da linguística geral ainda hoje não é ótimo. E se os fenómenos que consideramos universais só existissem nas línguas da Europa? A ideia de que o tempo é tripartito, por exemplo, materializado em passado, presente e futuro, à vista dos dados reais é bastante eurocêntrica, visto que nas famílias linguísticas não indo-europeias o tempo tem diferentes eixos ou mesmo é circular. Porém, esse suposto expande-se por via linguística e acaba assomando na filosofia ou na construção de hipóteses científicas; em lugares onde não era esperável.
Em geral, somos absolutamente eurocêntricas: temos referências claras para cidades, comidas ou símbolos culturais europeus e só numa ínfima medida para os doutras latitudes. Aliás, à medida que a globalização avança, incorporamos o outro sob a envoltura do “exótico”: viagens de turismo ao Japão, fajitas mexicanas ou pirâmides do Egito. Mas o exótico tem um ar burguês de distopia e discronia; não implica uma condição de igualdade entre os diversos espaços. Acho que continuamos temendo o outro. Doutra maneira não se explicaria que nos programas de história da arte ou de filosofia não apareçam as formas artísticas do Magrebe ou do Vietname, nem se formulem as grandes perguntas doutras civilizações, nem sejam citados pensador@s pret@s ou que escrevam em suaíli. Por acaso só interessam as catedrais ou as pinacotecas da Europa? Por acaso só o povo alemão e a Grécia clássica pensaram? Porque até poderia ser que também, como insinua com ironia Hamid Dabashi, os não europeus pensem. (…)”

Xose Manuel Sánchez Rei: “Cada vez é maior a proximidade com o espanhol das falas galegas”

Entrevista a Xosé Manuel Sánchez Rei no Portal Galego da Língua:
“(…) – Portal Galego da Língua (PGL): Na área linguística, és especialista nos pronomes átonos. Em que direção estão a mudar as falas galegas?
– Xosé Manuel Sánchez Rei (XMSR): Bem, é certo dediquei uma parte das minhas investigações aos pronomes pessoais átonos, mas também me tenho ocupado dos demonstrativos, de questões de sintaxe, da linguagem literária e da variação linguística, neste último âmbito com uma monografia que foi dada a lume por Laiovento há um tempo. Em todos estes anos, a minha sensação à volta dos caminhos que enveredam as falas galegas é que cada vez é maior a proximidade com o espanhol, quando menos em determinadas esferas da reflexão gramatical (fonética, sintaxe, etc.) e em certos ambientes geossociais, como os citadinos. Em confronto, ao mesmo tempo, continua a subsistir um tipo de galego elementarmente oral, popular, vinculado aos falares de gente idosa e ao mundo rural, em que (junto a fenómenos de perigosa hibridação com o espanhol) ainda se podem achar os traços idiossincráticos do domínio galego-português. Mas, infelizmente, esses falares galaicos, que fonética e sintaticamente mantêm as tais essências, não contam com qualquer prestígio social e são normalmente preteridos.
– PGL: Recentemente o presidente da AGAL, Eduardo Maragoto, e o teu colega Freixeiro Mato conferenciaram sobre binormativismo na tua faculdade. Qual a tua opinião ao respeito?
– XMSR: Com efeito, aconteceu há uns meses. Pareceu-me uma atividade muito interessante, até porque surgiu das inquietações do alunado sobre esses particulares e foi organizada por um grupo de estudantes muito sensíveis ao universo das línguas e em particular à galego-portuguesa. Ainda não tive tempo para refletir à vontade nestes temas, mas, inicialmente, a minha impressão do binormativismo é positiva e concorda com as principais ideias expostas pelos dois conferencistas. Com independência da ortografia escolhida, a presentemente oficial na Galiza ou a internacional, achamo-nos numa época em que todas as pessoas que queremos viver em galego devemos poder achar caminhos de confluência que nos permitam avançarmos nesse desejo e na normalização dele. Por outra parte, o mundo conhece casos em que uma mesma língua é escrita de modos diferentes e, nestes meios, a nossa não seria uma exceção. (…)”

Susana Sánchez Arins: “Estou orgulhosa de que a Através já não seja o espaço único que nos resta às autoras reintegracionistas”

Entrevista a Susana Sánchez Arins no Portal Galego da Língua:
“(…) – Portal Galego da Língua (PGL): Parece teres certa predileção pela combinatória de géneros, como já vimos com o seique. Tu contas e eu conto é um livro que contém poesia e narrativa. Umas vezes parece que os poemas estão escritos para os contos e outras que é ao invés. Podes contar-nos um bocado sobre o processo criativo e a decisão de unires num mesmo texto diferentes géneros?
– Susana Sánchez Arins (SA): Alguns dos poemas, como o de “política assistencial”, nasceram da estória que só depois decidi narrar em prosa, e pensei que deviam acompanhar-se, partilhar espaço, assim como mostra de respeito pola ideia primeira; depois nasceram estórias que eu não sabia se ficavam transparentes e pensei em colocar-lhe o poema para marcar aquilo que me interessava, ou oferecer outra visão do mesmo tema, ou mesmo contradizer o discurso dalguma personagem ou narradora. Em realidade, a medida que compunha o livro, vi que umas e outros pediam o acompanhamento: a estória, da síntese poética, o poema, duma estória que o estendesse.
E a cousa é sempre assim, não há vontade inicial minha de fazer cousas raras, juro, mas no processo de escrita encerelho-me, os textos tiram, eu puxo (“não, não, quero escrever normal, deixai-me, deixai-me!”), e sempre acabam por ganhar-me a partida.
– PGL: Formalmente o teu livro tem esse teu tom humorístico, ameno e mesmo oral. Porém, do ponto de vista do conteúdo impera a violência, que se manifesta de muitos jeitos (simbólica, institucional, machista…). É este um livro sobre a dor?
– SA: Não penso que seja um livro sobre a dor, mas sobre a vida. Eu pretendia escrever sobre o quotidiano, e foi no quotidiano que a violência entrou, entra. E quase sempre é essa a violência que fica sem narrar, porque as que interessam são as grandes, as maiúsculas, as públicas. E são estas privadas as que esquecemos porque não são contadas.
Acho que há muito humor nos textos, e que esse humor convive com situações de violência, mais ou menos brutal, mais ou menos subtil. Acho que assim são as nossas vidas. É com certeza o humor, junto com a tenrura (amor, diriam outras), o que faz que possamos erguer-nos, e continuarmos a ser pessoas, por cima dessa violência que sofremos ou presenciamos dia a dia. Isso é o que queria contar. (…)
– PGL: Tenho entendido que tens outros projetos em processamento… Podias-nos adiantar alguma coisa?
– SA: Ai! Devo-me à discrição! Mas posso dizer que estou muito contente porque os dois mais imediatos tenho-os comprometidos com editoras que não são a Através. Quer dizer, estou orgulhosa de que a Através já não seja o espaço único que nos resta às autoras reintegracionistas. Que haja outras editoras que publiquem obras nossas sem comentar nada, por desnecessário, dos nossos nh. Sem sugerir a possibilidade, sequer, de mudar a ortografia. Encontro isso prova dum caminho, pode que lento, mas inexorável, para o binormativismo. E orgulha-me fazer parte.”

Afonso Becerra de Becerreá: “A dramaturgia é a engenharia do teatro e da dança”

Entrevista de Teresa Moure a Afonso Becerra no Portal Galego da Língua:
“(…) – Portal Galego da Língua (PGL): O teu é um ensaio feroz, no sentido de que conduz quem ler por um território pouco conhecido, mesmo para o público habitual do teatro. Poderias definir o teatro pós-dramático?
– Afonso Becerra (AB): É aquele que afirma o próprio jogo teatral, na sua materialidade e concretização, sem submeter a ação a ideias previas, ao império da palavra ou à representação de uma história.
No teatro pós-dramático a palavra também pode jogar no palco, mas não o faz hierarquizando o resto dos elementos da composição cénica.
O teatro pós-dramático faz primar a sensorialidade, o movimento, o corpo, os objetos cénicos, a luz, os sons, sem estabelecer hierarquias entre os elementos compositivos e sem privilegiar o eixo diacrónico por cima do sincrónico.
– PGL: Tendemos a ver o teatro como um espetáculo, onde alguém (a companhia, quem escreveu a obra ou quem a dirige) decide absolutamente o que encena. Porém não há teatro sem público. Que significa, nesse contexto, Confio-te o meu corpo? Dito noutras palavras, que é que a atriz/o ator aguarda desse coletivo a quem convoca?
– AB: O primeiro que aguarda uma atriz/ator é que a espetadora e o espetador também atuem com eles participando no jogo que o espetáculo propõe. Por tanto, aguardam gerar uma atenção e uma empatia, para entrar num diálogo extraordinário, ou seja, fora do ordinário. Um diálogo empático que nos conecte e nos interpele no que diz respeito a algum aspeto determinado.
Confio-te o meu corpo vem a situar o corpo no centro do discurso, porque é no corpo onde tem lugar a vida e o jogo teatral. As coisas mais importantes sentimo-las no corpo: a paixão, o medo, a vergonha, a alegria… E quando falo do corpo, também o faço a partir de um sentido metafórico, no teatro e na dança, que na perspetiva pós-dramática som a mesma coisa, o corpo e a fisicalidade equivalem à forma dinâmica. O que importa nas artes do palco é o corpo das palavras, o corpo da voz, o corpo dos objetos cénicos, o corpo do movimento… a sua fisicalidade, a sua musculatura e textura. O mais importante sempre acontece no corpo. (…)”

Carlos Quiroga: “Tem sentido chamar as raízes de Pessoa de galego-portuguesas, pois na ascendência familiar hai sangue galego. Algo que por outra parte acontece com outros escritores portugueses”

Entrevista a Carlos Quiroga no Portal Galego da Língua:
“Em mais um fevereiro, numa sala hiper lotada de público, no hotel Axis-Vermar da Póvoa de Varzim, espaço que junto com o Teatro Almeida Garrett, constitui o epicentro das reunions e das apresentaçons de livros do encontro anual de escritores de expressom ibérica, as Correntes d’Escritas, Carlos Quiroga conversou com Sabela Fernández e Daniel Amarelo com motivo do lançamento do seu novo livro de ensaio, publicado em Através Editora: Raízes de Pessoa na Galiza. O Pessoa Galego.
– P: O título posto parece sugerir que o tronco da imensa árvore pessoana finca as suas raízes na Galiza… Casualidade? Ou entom, o Fernando Pessoa era galego-português?
– Carlos Quiroga (CQ): Pessoa é e será, quase enjoativamente, do mundo. Quanto às raízes, sim, se entendidas em primeira instância genealógicas, tem sentido chamar de galego-portuguesas, pois na ascendência familiar hai sangue galego. Algo que por outra parte acontece com outros escritores portugueses. O título da publicaçom que isso documenta, como se poderá suspeitar, nom tem nada de casual. O autor teria preferido dar à luz em Portugal, dada a natureza do assunto, e aí para evitar suscetibilidades chauvinistas, inerentes a este tipo de abordagens, o título e a capa seriam mais cautos. Mas acabando por sair antes na Galiza, e sendo essa leitura inevitável, nom tenho pudor e assumir o chauvinismo pareceu-me o coerente. (…)
– P: Além da procura genealógica das raízes familiares do Fernando Pessoa na Galiza, o livro é um valiosíssimo documento sobre a intrahistória dos heterônimos do Fernando Pessoa: o Álvaro de Campos e o Alberto Caeiro…
– CQ: Pois tamém acho. Nom é que todo o relativo a essa parte seja absolutamente novo, mas apontar um Caeiro galego como referente real é novo e ousado –um Caeiro cónego da catedral publicamente bem conhecido, especialmente pelas vésperas e posteriores faustos do ano Santo Compostelano, e até parodiado por outros artistas como Asorey em escultura. Tamém é novo e ousado, ainda que mais relativamente porque já fora insinuado, defender que Pessoa publicou na Galiza um texto da campanha do Orpheu, traduzido por Enrique Dieste. Quanto ao resto, como a galeguidade, tanto de Caeiro como de Álvaro de Campos em origem, os dados estavam à vista, mas atenuados quando nom encostados. Reconstruir as relaçons com Guisado e acompanhar o processo de intermediaçom deste talvez resulta algo cansativo na leitura, mas era necessário para pôr em valor e fundamentar bem essa intrahistória galega. (…)
– P: Raízes de Pessoa na Galiza. O Pessoa galego nom deixa de se entroncar também com o teu anterior ensaio, A imagem de Portugal na Galiza
– CQ: Certamente. O papel de Guisado e a precoz mençom de Pessoa e do Grupo Orpheu em 1914 em Vida Gallega, antes que se editasse a revista, já aparece nesse livro. Os dados já os tinha, o Pessoa galego nom é mais do que a amplificaçom extrema de detalhes aludidos no livro anterior, polo menos na segunda parte. Aquele era mais divulgativo, breve e condensador de séculos de relacionamento galego-português. Este é umha levitaçom budista à volta de umha fava chamada Fernando Pessoa, e já se sabe que os budistas som capazes de ver paisagens inteiras numha fava…! (…)”

“Agália encerra etapa com a publicaçom dos volumes 113 e 114”

Desde o Portal Galego da Língua:
“Os volumes 112 e 113 da Agália som publicados com umha distribuiçom similar, respetivamente com seis e nove artigos fruito de investigaçons realizadas em universidades brasileiras e mais um trabalho de documentaçom procedente da Galiza em cada caso. A correspondência trocada entre Victoriano Garcia Martí e Ramón Otero Pedrayo em relaçom com a publicaçom polo primeiro das Obras Completas de Rosalia de Castro, no volume 112, e a correspondência de Manuel Maria Fernández Teixeiro com os seus editores Emilio e Xosé María Álvarez Blázquez entre 1955 e 1975, no primeiro volume de 2016, constituem os dous trabalhos da nova seçom de «Documentação» iniciada no volume 112.
Por seu lado, o último volume desta série da Agália (o 114) contém oito trabalhos procedentes de universidades brasileiras. Os três primeiros estám referenciados no campo artístico e abordam as relaçons entre arte e mercado, artesania e religiom, e arte e filosofia; os três seguintes procedem do campo dos estudos literários e focam outras tantas figuras centrais do cânone fixo da literatura brasileira; e os dous últimos estám localizados no campo dos estudos linguísticos, quer para estudar a construçom sexual da realidade operada através da linguagem quer para abordar empiricamnte a aquisiçom da norma culta no campo do ensino.
Com o número 114 a Agália conclui umha etapa da revista iniciada em novembro do ano 2010 sob a direçom do professor Roberto Samartim, da Universidade da Corunha (UdC). Umha vez finalizado em 2015 o compromisso assumido pola atual direçom, e tal como acordado na Assembleia Geral da Associaçom Galega da Língua (AGAL) celebrada em abril de 2016, será explorada agora a possibilidade de estabelecer um convénio com a Universidade de Santiago de Compostela (USC) para que esta universidade galega possa vir a acolher no seu sistema de ediçom digital em formato aberto a revista da AGAL. Se isto se efetivar, a Agália dará continuidade ao atual projeto científico e editorial sob a direçom das professoras Felisa R. Prado (da USC) e Cristina M. Tejero (da Universidade de Lisboa), envolvidas na direçom da publicaçom já desde o ano 2012. Se isto nom for possível, a Associaçom que sustenta e edita a Agália desde há mais de trinta anos decidirá oportunamente de que maneira a revista pode continuar a ser útil aos objetivos marcados pola AGAL desde a sua criaçom em 1981. Seja como for, até o novo sistema ficar operativo a Agália mantém fechada a receçom de contributos. (…)”

Teresa Moure: “Um elefante no armário é um romance sobre a verdade”

Entrevista de Teresa Crisanta Vasques Pilhado a Teresa Moure no Portal Galego da Língua:
“(…) – Portal Galego da Língua (PGL): Na apresentação pública do teu romance [Um elefante no armário] na Culturgal fizeste menção ao reto que para ti supus alcançar uma escrita menos barroquizante. Poderias precisar o alcance e objetivos desse propósito e ainda, trata-se dum desafio estritamente retórico ou tem dimensões compositivas, estruturais, etc.?
– Teresa Moure (TM): Um elefante no armário é um romance sobre a verdade. Ao fundo, as teorias deflacionistas que pretendem diminuir o peso desse conceito na ciência ou no pensamento, também na política. Porém, a protagonista, que é uma filósofa especializada nesse assunto, e que abandonou anos atrás toda atividade académica, deve regressar lá, à indagação, mas em contextos quotidianos, nas relações pessoais, na interpretação da própria vida. Essa temática obrigou-me a usar, especialmente nas partes narradas por Ana Brouwer, um estilo mais conciso, quase poético. O procedimento tem a ver com a procura da autenticidade porque a verdade é isso: revelar o que está oculto, com a intencionalidade única de o conhecer. Trata-se apenas duma questão de estilo. Na estrutura, o romance é complexo: tem seis partes que incluem seis pontos de vista e nenhuma das vozes narradoras está em possessão da Verdade com maiúsculas; quem ler deverá decidir qual é a versão dos factos correta. É mesmo um desafio.
– PGL: Do meu ponto de vista, acho que em Um elefante no armário podemos encontrar vários elementos de ficção muito semelhantes com sucessos que de facto são reais. Por outro lado, podemos ler no romance que a verosimilitude é uma qualidade que não predicamos da realidade, mas sim temos uma certa tendência a exigi-la na literatura. Podes ser que estejas a ficcionalizar elementos da realidade para ver até que ponto uma e outra –é dizer, ficção e realidade– se podem distinguir?
– TM: Sempre que publico um romance, observo que @s leitor@s pretendem encontrar lá elementos autobiográficos ou episódios realmente acontecidos. Porém, literatura é literatura. Histórias são histórias. Provavelmente escritores nadamos num caldo cultural que implica nem só conceitos, também episódios, mas nem agora nem nunca pretendi ficcionar nada real. Porém, respondendo a tua pergunta num sentido mais geral, a literatura é esse espaço onde o imaginado e o real se confundem. E, com efeito, a vida surpreende-nos com histórias muito mais esquisitas do que aquelas que aparecem nos romances. Como diria Maurício Almeida, um dos protagonistas de Um elefante no armário, Deus, como escritor, não passa do nível de amador. (…)
– PGL: A propósito da tua tradução dos poemas da Ana Brouwer em Chan da pólvora (Não tenho culpa de viver), como é que concebes a autoria?
– TM: Em Um elefante no armário incluem-se fragmentos dum livro de filosofia que Ana Brouwer escreve. Apanhei alguns desses fragmentos (demasiado toscos talvez para serem verdadeira poesia, demasiado poéticos para serem verdadeira filosofia), num poemário ainda inédito que intitulei O dia em que comprei mentiras por catálogo. Antón Lopo, da chancela Chan da pólvora, soube da sua existência e propus publicar oito deles, numa escolha pessoal de editor, nesse livrinho Não tenho culpa de viver. Isso permite que saiam ao mesmo tempo a minha obra e a obra de Ana Brouwer. É um jogo sobre autorias que se explica só. A criação nunca vem do nada nem é estritamente individual. Fazemos parte sempre dessa coral de textos que nos constroem como indivíduos e que constroem a cultura como artefacto coletivo que nos representa e que nos modela. (…)”

Entrevista a Manuel Portas no Portal Galego da Língua

Desde o Portal Galego da Língua:
“(…) – Portal Galego da Língua (PGL): Como achas que mudou na Galiza a situação sociolinguística, ou não, desde a publicação do teu livro Língua e sociedade na Galiza em 1990?
Manuel Portas (MP): É difícil condensar em poucas palavras… Não há razões para sermos otimistas, pois o fenómeno mais importante para o futuro, o processo de assimilação linguística que padecemos, continua avançando na transmissão intergeracional. A potência com que os novos sistemas de comunicação social e as TICs estendem línguas como o inglês e o espanhol, os retrocessos experimentados pelo galego no ensino, a inanição com que é castigado o mundo da cultura, quando mais necessário era o apoio institucional, estão a potenciar essa tendência populacional à deserção linguística. Contudo, não podemos esquecer que o coletivo social que usa a língua com consciência continua a crescer, que os novos quadros de comunicação social são, além de um perigo, também uma oportunidade se os soubermos aproveitar. Cumpre mais que nunca renovarmos discursos e um grande pacto pela língua, quanto menos entre os que a defendemos, na procura desses mínimos comuns, quiçá executando com decisão e mais meios o Plano Geral aprovado também por unanimidade no Parlamento.
– PGL: Como era vista e percebida a língua portuguesa naquela altura e como pensas que o é na atualidade?
– MP: O português era –e continua a ser em grande medida- uma realidade desconhecida para uma parte importante da nossa sociedade. Do mesmo jeito que acontece em Portugal (para além da raia está a Espanha, e na Espanha fala-se espanhol), aqui, na Galiza, os tópicos simplistas e os preconceitos sobre o português alentavam um discurso similar de afastamento. Nestes últimos anos, e mercê à pressão do galeguismo linguístico tem-se avançado muito no reconhecimento da potencialidade que tem para nós. A guerra normativa não contribuiu para que fossem vistos com objetividade os benefícios que para a Galiza representa o português, independentemente da orientação normativa dos setores confrontados. É preciso acabarmos com os preconceitos e procurarmos salientar as indubitáveis vantagens que nos fornece o domínio do português, seja este concebido como variante do sistema linguístico comum ou como língua independente da nossa. (…)”

Teresa Moure: “O futuro convida a centrar os nossos esforços na tarefa de dar cabo do Apartheid ortográfico, de procurarmos um público sem prejuízos, de ganharmos espaços”

Entrevista a Teresa Moure no Portal Galego da Língua:
“(…) – Portal Galego da Língua (PGL): Vens de dar começo a um blogue pessoal de crítica literária, A tecer aranheiras. Ti própria diz fazê-lo “quando blogues já não estão na moda, quando ninguém tem tempo para ler”, fazendo um apelo à resistência. De que jeito pode a crítica, hoje, edificar uma resistência?
– Teresa Moure (TM): A cada dia que passa mais sou persuadida pela ideia de que fica pouco tempo para um certo tipo de literatura. O pessoal devora textos on-line, mas acha não ter um momento propício para outros formatos mais clássicos. Nesse sentido, é possível que a palavra resistência se module mais uma vez entre nós. O meu objetivo consiste, portanto, em tecer uma rede de cumplicidade entre criador@s que ainda tentamos construir mundos ou enviar mensagens para o público, embora tantas dificuldades. A tecer aranheiras concentra-se especialmente em livros invisíveis pelo seu género (poesia, ensaio), ou pela temática e o estilo; livros pouco divulgados nos meios convencionais ou declaradamente proscritos do núcleo oficial da cultura. Tem muito de subversão, de denúncia dos circuitos diminutos da crítica neste país, e também muito de brincadeira pessoal.
– PGL: Do mesmo ponto da crítica (que é sempre, mesmo em sentido inverso, também o da instituição), qual achas que é o estado das letras reintegracionistas? Quais os seus caminhos mais fecundos em clave de futuro?
– TM: Toda a literatura galega é um produto contrapoder por definição. Assim nasceu, como uma reivindicação nacional, e dalguma maneira esse é seu perfil caraterístico, visto que continua a ser vetada na maioria das montras das livrarias. Num tal contexto, a literatura galega reintegracionista constituiu mesmo as margens das margens. Porém, nos últimos tempos, timidamente, e devido a circunstâncias externas a seus criadores, parece visualizar-se um bocado. Como tais produtos literários, as criações em normativa reintegracionista têm a garantia duma vontade de língua, que é um motor importante nesta arte. O futuro convida a centrar os nossos esforços na tarefa de dar cabo do Apartheid ortográfico, de procurarmos um público sem prejuízos, de ganharmos espaços. A qualidade e as vontades de tantas criadoras e criadores não podem ser inúteis. (…)
– PGL: Bolcheviques (1917-2017), livro coordenado por ti e editado por Através e Xerais, vem de ser escolhido como um dos melhores ensaios do ano pelos leitores de Fervenzas Literarias. Agora que têm passado já umas semanas desde a sua aparição, e que começaste a fazer lançamentos da obra, como avalias a experiência?
– TM: Os volumes de Bolcheviques, um único livro com duas editoras, constituem uma experiência sem precedentes na nossa história editorial e bastante esquisita em qualquer lugar. As grandes editoras dum país pequeno e culturalmente ocupado por outra língua decidem uma política sem fendas: só publicam numa normativa isolacionista, rejeitando as possibilidades económicas e a difusão internacional que teria a ortografia histórica. Em consequência, no lado escuro, xorde uma alternativa editorial para dar voz à dissidência, por assim dizer. Perante uma tal situação, quando alguém quer organizar um volume de autoria coletiva sobre determinado tema, vai bater com que os autores e autoras especialistas de facto escrevem em normativas diferentes. Uma resposta possível, que também não é assim tão imaginativa, consiste em propor que cada autor(a) utilize a normativa da sua preferência e que o livro seja editado por duas editoras, que podem manter, desta maneira, as suas políticas ortográficas. Utilizei no prólogo a metáfora do rei Salomão com certa ironia. Desta vez, o Salomão decidiu partir a criança, a metade para cada mãe. Pretendíamos visualizar assim que, quando existir vontade, é possível procurar a via. A minha esperança é que no futuro imediato apareçam mais projetos onde a convivência das normativas dê nas vistas, experimentando com novas fórmulas. Porque nós, reintegracionistas, queremos lá estar, na cultura galega; não fazer parte dum grupo de exílio forçado.
Num sentido diferente, acho muito engraçado que seja eu (nem militante dum partido comunista, nem historiadora) a coordenadora. Ter escrito um romance sobre Inessa Armand e Lenine deu-me hipótese de partilhar opiniões políticas e históricas com boa parte da esquerda deste país. No ano passado fui convidada a participar num Comité para a celebração do centenário da revolução russa e lá propus que o meu contributo poderia consistir em publicar um livro. Eis o livro. (…)”