Tiago Alves Costa: “O mundo entra nos textos sem ficar reduzido a um tema”

Entrevista a Tiago Alves Costa en Novos Livros:
“(…) – Novos Livros (NL): O que representa, no contexto da sua obra poética, o livro Deus ainda usa o Windows 10?
– Tiago Alves Costa (TAC): Deus ainda usa o Windows 10 inscreve-se num percurso de cerca de dez anos, que passa por Mecanismo de Emergência e por Žižek vai ao Ginásio, com edições na Galiza e no Brasil. Os três livros partilham uma atenção às fracturas do presente e uma ironia que deixa ver tanto o absurdo como a ferida. Neles, o poema acolhe vozes, diálogos e pequenas cenas, aproximando-se por vezes da narrativa e do teatro.
Há também uma circunstância biográfica importante: estes livros foram escritos fora de Portugal, sobretudo entre a Galiza e Barcelona. Deus ainda usa o Windows 10 começou ainda na Galiza e foi terminado em Barcelona, onde vivo actualmente. Com o tempo, percebi que viver entre línguas, culturas e diferentes maneiras de olhar o mundo se tornou uma condição da minha escrita. Essa experiência abre um intervalo entre o lugar de onde venho e aquele onde vivo, e é nas margens desse intervalo que escrevo.
Interessa-me partir do real e introduzir nele um desvio, abrir uma brecha por onde a imaginação possa fazer surgir outra possibilidade. O mundo entra nos textos sem ficar reduzido a um tema. O trabalho, a tecnologia, a precariedade ou a solidão aparecem através das vozes, dos ritmos e das pequenas situações que compõem o livro. Curiosamente, muitas dessas vozes começam no pretérito, como se entrassem no texto já marcadas por alguma perda. Quero pensar a modernidade sem nostalgia. Ainda assim, o passado reaparece como uma perturbação dentro do presente, o vestígio de alguma coisa que se perdeu antes de chegarmos a reconhecê-la.
Nesse sentido, Deus ainda usa o Windows 10 representa menos uma ruptura do que um aprofundamento do meu percurso; prolonga a tentativa de deslocar o real através da imaginação e de alterar, ainda que por instantes, a maneira como habitamos o mundo.
– NL: Qual a ideia que esteve na origem do livro?
– TAC: A origem do livro está na percepção de que a vida quotidiana passou a falar a linguagem dos sistemas operativos e a incorporar as exigências do chamado capitalismo de plataformas. Actualizamo-nos, optimizamo-nos, aceitamos termos e condições e procuramos acompanhar uma velocidade que parece nunca diminuir. A tecnologia entra no livro como ambiente, vocabulário e disciplina dos corpos. Trabalhamos, comunicamos, desejamos e descansamos diante de ecrãs. Até a própria ideia de liberdade parece condicionada e, por vezes, a intimidade exige uma versão constantemente renovada de nós próprios. Há um verso no livro que condensa essa tensão: «NÃO ÉS LIVRE / ÉS GRÁTIS». É também nesse contexto que surge o título, a partir da imagem de um Deus que insiste em utilizar um sistema operativo condenado à obsolescência. Um demiurgo que resiste à actualização e conserva alguma relação com o erro, a falha, a queda. Num tempo em que somos convocados a apresentar versões mais eficazes de nós próprios, parece-me que essa imperfeição pode adquirir uma potência crítica e também criativa. É, antes de mais, um livro de poesia, embora se deixe atravessar pelo diálogo, por vozes ficcionadas e por resíduos de linguagem administrativa. Interessa-me essa dificuldade de o encerrar num género, até porque a própria realidade que o livro procura captar se tornou instável, fragmentária e difícil de organizar. Deus e o Windows 10 são apenas dois dos campos de força que atravessam estas páginas. As vozes, as pequenas situações quotidianas e as falhas da linguagem registam, como uma espécie de sismógrafo, os tremores do presente antes de sabermos exactamente o que significam. A ironia é essencial também nesse processo, abre algum ar dentro da gravidade, permite reconhecer o absurdo e continuar a viver no seu interior. (…)”

Foz: actividades do 22 de agosto na Feira do Libro 2026

A poeta Estíbaliz Espinosa ante a eclipse: “Levo anos traballando esa trenza cósmica de poesía que mira ao ceo, así que ando con textos e merlos na cabeza”

Entrevista de Claudia Varela Lourido a Estíbaliz Espinosa en Xornal da Coruña:
“(…) – Xornal da Coruña (XC): egundo a túa perspectiva, que ten unha eclipse que leva fascinando á humanidade desde hai milleiros de anos?
– Estíbaliz Espinosa (EE): Unha eclipse, hoxe, é un mecanismo celeste que nos lembra que non todo o que vemos é o que parece. Fascina porque, segundo a perspectiva que tomemos, varía o que acontece: nós vemos unha superposición aquí, pero no resto do mundo será un solpor normal de mércores. E desde certo lugar do espazo veriamos tres corpos aliñados, Sol, Lúa e Terra (unha sicixia). Hai milleiros de anos non é que fosen máis parvos: xa sabían que as eclipses eran cousa da Lúa e o Sol. Convidada nunha charla no Planetario, o director dos Museos científicos coruñeses, Marcos Pérez, lanzaba unha gran cuestión: como é que, sabéndoo de sobra, se entregaban igual ao mito e ao rito? Non sei se a resposta é esa idea de que sen un relato, sen unha ficción que nos confira sentido, dá igual saber a verdade. O relato que nos contamos a nós mesmos impórtanos moito. (…)
– XC: Hai algún texto ou composición que che veña á cabeza cando pensas nunha eclipse?
– EE: Levo meses lendo e escribindo sobre eclipses, abofé que moitas! Acabo de rematar un Observatorio de ideas e textos de literatura e astronomía en Compostela, e vimos desde Arquíloco de Paros a Annie Dillard ou Deborah García Bello. Levo anos traballando esa trenza cósmica de poesía que mira ao ceo, así que ando con textos e merlos na cabeza: os de Dickinson, Cunqueiro, Billy Collins, os da antiga China… e cancións como a morna Eclipse ou Black Hole Sun, de Soundgarden (que non fala de eclipse ningunha). Pero nas dúas horas de parcialidade e no minuto de totalidade, só quero mirar o mundo como cando nena. Sereino. Estarei cos meus, e terei na cabeza, máis que poemas, o tacto das mans dos que se me foron antes e aínda evoco acotío. Que me gustaría vivilo con eles, contárllelo. Na cabeza só teño o gran poema do espazotempo. Os poemas dobran e furan as páxinas como buracos de verme, comunican esta eclipse de hoxe con aquel adxectivo dunha tarde de hai anos, con eles.
– XC: Cres que a eclipse vai potenciar que a xente reconecte coa natureza?
– EE: Faime graza a expresión reconectar coa natureza. Xa nos pensamos como cyborgs, sempre conectados a algo, ou ben o móbil, ou ben textos biónicos ou ben a Natureza… pero sempre con cables soltos, non? Somos parte da Natureza e estamos conectados a ela, nese sentido, o que a ela lle facemos sempre nolo facemos a nós. Supoño que a reconsideración romántica (ollo, romántica de Romanticismo europeo, non do sentido romántico popular) ou nostálxica da Natureza sempre está aí, porque no fondo nunca desconectamos de todo. Non é tanto unha reconexión como ver que vivimos á intemperie nun “pelouro que roda”, que diría Rosalía (a nosa). (…)”