Crónica videográfica da II Gala do Libro Galego (IV)

A II Gala do Libro Galego, coorganizada pola Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega, a Asociación Galega de Editoras e a Federación de Librarías de Galicia, tivo lugar o sábado 20 de maio no Teatro Principal de Santiago de Compostela.

Aquí pode verse a crónica videográfica completa, da que destacamos hoxe estas intervencións:

Premio de Ensaio: Mercedes Queixas, Labrego con algo de poeta.

Premio de Tradución: Historia do nobre Ponto, que foi rei de Galiza e de BretañaAnónimo. Tradución: Henrique Harguindey Banet.

Proxecto literario na rede: A Sega. Plataforma de Crítica Literaria.

O quarto de… Susana Arins

Desde A Sega:
“Criada numa família numerosa com casa pequena e todo comunal, nunca achei de menos um quarto próprio. Até o ter. Fui estudar a Santiago e contei com um quarto nos depauperados pavilhões do Burgo, graças aos quais tantas pudemos fazer carreira. E aí desatou-se a minha atividade escritora. A soidade era pouca: paredes de papel e muita atividade estudantil, mas fechada a porta, o mundo era todo meu. E quando tive outra vez um quarto próprio, em Lisboa, acompanhado da solidão mais absoluta (sozinha numa cidade desconhecida), aí foi um não parar. Cadernos, cadernos, cadernos. Creio que foi em Lisboa que li a Woolf e senti que eu estava a viver o processo que ela narrava no ensaio.
Com a experiência, aprendi a encontrar a intimidade em qualquer lugar: sou quem de escrever o rascunho de um texto no meio de uma palestra, de um jantar, de um café de barulho ensurdecedor. Isso sim: a revisão deve ser feita em solidão. Para isso nada substitui o quarto próprio. Mesmo a distância incrementa a capacidade revisora: provei novamente a bakardadea total, refugiando-me em Pasaia, onde até a língua do café da manhã me isolava, para acabar o seique. A prova irrefutável.
Porém, com o tempo, cai noutra conta: quase todas as ideias para a escrita nascem-me de conversas, encontros, anedotas, acontecidas no trabalho, na festa, no café, na compra. Sobre todo de conversas. E dei em ver que do que eu preciso é da exata e certa combinação entre soidade e companhia, intimidade e comunidade. Tenho que dialogar no mundo para poder esconder-me no meu acovilho e escrever. Por isso penso que o quarto próprio de Virginia Woolf deve ir acompanhado de vida em comunidade, de encontro.
Em tendo essas parcelas, o resultado é a criação.
Para mim foi objetivo vital. Criada numa família numerosa com casa pequena e todo comunal queria contar com um quarto próprio. E dei. Edifiquei um maravilhoso refúgio para agachar-me de vós e com todo a mão: luz, livros, impressora, lembranças, dicionários… mas também é certo que quase sempre o refúgio é bem mais simples: sofá, manta, livro e computador.”

“A transição como mentira”, por Susana Sánchez Arins

Artigo de Susana Sánchez Arins na Sega:
“Duas personagens rememoram o passado e decidem contar-nos o que tal lhes aconteceu. Uma desde o hoje revisa o seu primeiro trabalho como jornalista. A outra é a pessoa objeto da sua pesquisa. E sabemos. O protagonista nasce ao jornalismo em plena transição espanhola, num jornal que poderia bem ser transunto do Elpaís. Por azares da vida, chega a responsabilizar-se da redação duma exclusiva que conseguem os seus chefes: a entrevista a um assassino em série a ponto de morrer e desejoso de contar a sua versão. De confessar. E a história deste criminal leva-nos ao golpe de estado de 36 e à repressão posterior.
Guiar o carro em solidão dá para cismar todo na vida. Por vezes pode entreter-nos a emissora de rádio, o parte, as músicas na moda, mas acabamos por cair no pensamento, na auto-confidência. Funciona a cabina como céu protetor. Recuperamo-nos na nossa intimidade, lembramos, reconduzimos atitudes, reinventamos conversas e predizemos comportamentos. É na road-movie que nos podemos permitir a verdade. Sermos quem somos. Levamos uma mão ao guiador, calcamos o travão com o pé e sinceramo-nos. Construimo-nos em cada um dos quilómetros que recorremos durante horas. Isto é o que não faz o protagonista [e narrador] de Transición (de Pablo Fernández Barba). Cruza a meseta na busca do lugar inominado e só sabemos, na viagem, das paradas e do conteúdo dos sandes que toma no caminho. E desta maneira toda a narrativa. Anda doente com o mundo, mas não chegamos a acreditar nele porque nunca, em momento algum, partilha com nós a sua intimidade. Pode que confesse, como em balcão de bar. Pode que nos revele algum segredo. Escatológico, provavelmente. Mas a confidência, que requer cumplicidade e cordialidade, essa, não chegamos a senti-la. Não somos depositárias da narrativa. Somos simples destinatárias duma mensagem adulterada. (…)”

Especial sobre escritoras galegas en Recendo, de Cuac FM

Desde Recendo de Cuac FM:
8×20 Especial Sobre Escritoras Galegas. Programa número 248, no que realizamos estas tres entrevistas a escritoras galegas:
Ledicia Costas.
Susana Sánchez Arins.
Pilar Pallarés.

Pode escoitarse aquí.”

“Sombra de mulheres na erva”, por Susana Sánchez Arins

Artigo de Susana Sánchez Arins na Sega:
“(…) Esta é a arte de Daniel Asorey. Brinca com a verdade e a mentira com a finalidade única de atirar-nos dos olhos a venda que nos cega, a mesma que nos impede ver quem fomos e, portanto, que somos. E boa falta fazia, que alguém colocasse no papel, bem clarinho, o nosso lugar nessa história que sempre preferimos não ler.
O autor introduz-nos no seu mundo à maneira documental, mostrando as provas da verdade: a existência das cangaceiras. Nascemos ao romance com uma fotografia, tão brutal como real, das cabeças cortadas, sem ilhas nem piratas. E, pensando que estamos a ler recriação historicista, passa a situar-nos numa Compostela amsterdiana, substituídos por canles os caminhos de pedra que conhecemos. Falsidade. Como vão chegar as dornas à praça do Obradoiro!
E damos com elas. Com as protagonistas. Matilda a Gringa, Maria Bonita, Carme de Candingas. Eis as três. Com nome. E com capacidade de nomear o universo. Polos olhos e pensamentos delas, em espaços diversos, desde posições sociais diferentes, mesmo em distintos momentos históricos, vemos como aprendem que não são flores deste mundo, que o que elas vem, pretendem, querem, não pode ser edificado lá onde a história as colocou. Todas elas, as três, rebelam-se contra o seu destino de mulheres obedientes. Estão dispostas a luitar por mudá-lo todo, para, após o fulgor duma amarga descoberta, acabarem tão desiludidas como cientes de que as suas ambições de justiça excedem-se em ambiciosas. Não serão consentidas. (…)”